docomomo - 7° Seminário Docomomo Sul – Porto Alegre (2022)
Reabilitação de Patrimônio Industrial Gaúcho Metalúrgica Abramo Eberle S.A. (MAESA)
FESTUGATO, Taísa
Mestre em teoria história e crítica de arquitetura; PROPAR – UFRGS
Doutoranda em Patrimônio Arquitetônico; Faculdade de Arquitectura do Porto, Portugal.
Resumo. Este trabalho analisa as estratégias e as soluções propostas no Plano Geral desenvolvido em 2021 pelo escritório Vazquez Arquitetos para a antiga Metalúrgica Abramo Eberle S.A. (MAESA) em Caxias do Sul, um dos principais exemplares da arquitetura industrial gaúcha da primeira metade do século XX. A abordagem do Plano Geral busca o entendimento da necessidade de superar uma abordagem objetual a estes bens (como se fossem ilhas urbanas encerradas em si mesmas), para uma visão sistêmica na sua relação com a infra estruturação territorial, as dinâmicas urbanas (mobilidade, acessibilidade, funções) e as comunidades que os significam. Tratam-se de áreas amplas, com construções diversificadas, de períodos distintos, com áreas ociosas e grande potencial para implementação de novos empreendimentos. Potencial que tem levantado o interesse do poder público e do mercado imobiliário para esses locais, contudo, as propostas projetuais têm demonstrado pouca apropriação dos princípios que deveriam reger as ações nos bens culturais. A partir de tais apontamentos é desenvolvida uma análise da solução proposta no Plano Geral para Reabilitação da MAESA vinculando ao seu contexto histórico e urbano. Por fim, discute-se a importância da reintegração urbana com valorização da identidade e resgate da memória nas intervenções em antigos edifícios industriais, para que as reabilitações de novos usos atendam às necessidades contemporâneas e salvaguardem o patrimônio.
A antiga Metalúrgica Abramo Eberle S.A. (MAESA) em Caxias do Sul é um dos principais exemplares da arquitetura industrial gaúcha da primeira metade do século XX. O conjunto, construído em 1945, reflete a racionalização construtiva, que ocorreu a partir da década de 1930, com uso de estruturas de concreto armado e referências às vanguardas europeias. O caráter industrial de influência inglesa com tijolos aparentes e uma simplificação estilística alinhada às arquiteturas modernizantes do chamado “modernismo pragmático” (SEGAWA 2010) faz da obra um exemplar único em sua escala e importância social para o Rio Grande do Sul.
O conjunto de 53.000 metros quadrados, localizado no centro urbano, é conformado por cinco quarteirões hermeticamente cercados, traduzindo uma barreira física na cidade cuja preocupação com a reabilitação passou a ser debatida após a doação do bem para o Município em 2015. Tombado neste mesmo ano como patrimônio municipal pelo seu valor arquitetônico, histórico e de memória, teve o Plano Geral de Reabilitação desenvolvido em 2021 pelo escritório Vazquez Arquitetos e do qual a autora participou como uma das integrantes da equipe. O plano propõe a reintegração do conjunto ao tecido urbano através de estratégias de subtrações e adições controladas de elementos construídos após análise diagnóstica do conjunto e desenvolvimento de matriz de novas vocações.
Este trabalho analisa as estratégias e as soluções propostas no Plano Geral que busca intervir no bem de modo integrado, para que as soluções não segreguem o patrimônio e resgate todo o potencial urbano e de preservação de forma conjunta. Explorando o tema de que o património só existe enquanto suporte identitário das comunidades. De um modo geral, as intervenções em patrimônios industriais obsoletos costumam passar por duas soluções principais, i) a parte que demonstra valores estéticos e memoriais é preservada e recebe uso cultural, como museu ou centro de cultura e ii) a parte de menor valor é demolida e recebe novas edificações de uso cotidiano (moradia, comércio) que respondem ao Plano Diretor sem preocupação em se relacionar ao patrimônio existente. A solução do Plano Geral busca o entendimento da necessidade de superar uma abordagem objetual a estes bens (como se fossem ilhas urbanas encerradas em si mesmas), para uma visão sistêmica na sua relação com a infra estruturação territorial, as dinâmicas urbanas (mobilidade, acessibilidade, funções) e as comunidades que os significam.
CONTEXTUALIZAÇÃO
O interesse pela preservação do patrimônio industrial é bastante recente e passou a ser debatido em maior escala na década de 1950 na Inglaterra através do Conselho da Arqueologia Britânica (CBA). Este foi protagonista na abordagem do tema e sob sua coordenação foi elaborado o primeiro inventário nacional dos monumentos industriais na década de 60. Após a década de 70 multiplicam-se estudos vinculados ao tema em vários países e em 1978 foi criado o The International Committee for the Conservation of the Industrial Heritage (TICCIH) que desde então organiza reuniões cientificas periódicas sobre o tema a nível mundial. Hoje este organismo constitui o comitê científico para o patrimônio industrial do ICOMOS (International Council of Monuments and Sites), associado a UNESCO (United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization).
No Brasil, ainda em 1943 foi tombado pelo Sphan, o Solar do Unhão, um conjunto com casa-grande, senzala, armazéns e cais, em Salvador, na Bahia, que viria a ser restaurado pela arquiteta Lina Bo Bardi em 1959. Apesar de intervenções precoces como o SESC Pompéia e do tombamento, ainda em 1964, dos remanescentes da Real Fábrica de Ferro São João de Ipanema em Iperó, São Paulo, pouco se debateu sobre o tema até 2004, quando foi constituído o Comitê Brasileiro para a Preservação do Patrimônio Industrial, TICCIH-Brasil. Atualmente, diversos estudos desenvolvem o tema abrangendo aspectos históricos e sociológicos além de arquitetônicos sobre a preservação e restauração desses bens. As pesquisas de Beatriz Kühl[1] abrem campo para esta discussão, tratando dos aspectos teóricos da restauração do patrimônio resultante do processo de industrialização e inserindo-os no contexto atual, analisando ações recentes em edifícios industriais paulistas, como a Estação da Luz.
Apesar do aumento do interesse nos bens industriais, pouco se debate como devem ser as intervenções nos edifícios abandonados para que estes voltem a fazer parte do cotidiano das cidades se apropriando dos princípios que deveriam reger as ações nos bens culturais. As edificações industriais de Caxias do Sul foram objeto do estudo de Costa que lançou um primeiro olhar para o conjunto edificado na cidade até a década de 1950, e destacou a MAESA como:
um dos poucos, e sem dúvidas, dos mais significativos edifícios industriais de Caxias do Sul no padrão manchesteriano, em que se observam formas sóbrias, pesadas e valorizadas pela textura dos tijolos e pela simetria dos planos.” (A. COSTA 2001, 166)
De matriz industrial, a cidade de Caxias do Sul tem doze edifícios industriais tombados, num total de 53 bens classificados como patrimônio municipal, e a MAESA se destaca pela sua monumentalidade, história e localização junto ao centro da cidade. Diversas obras estudam a importância da família Eberle e das suas indústrias para o desenvolvimento da cidade de Caxias do Sul. O fator social foi fundamental para o tombamento do conjunto, que teve uma grande participaçãocomunitária na busca pela manutenção do bem.
ANTIGA METALÚRGICA ABRAMO EBERLE S. A.
O conjunto atual da MAESA é resultado de um processo de construções, ampliações e alterações que foram ocorrendo durante as quase oito décadas de existência do edifício. Esta organização temporal de construção em etapas é claramente percebida no conjunto formado por um edifício central com caráter hierárquico de destaque, por ter sido o primeiro a ser construído e o que abrigou a fundição. E dois lados formal e materialmente distintos, porém igualmente configurados por pátios centrais contornados por construções. O edifício central se destaca por sua composição de cobertura em arco com pé direito alto, marcando a nave de um conjunto pavilhonar.
A fragmentação compositiva do conjunto também é reforçada pela troca de autoria, quando o arquiteto Silvio Toigo, que havia iniciado o projeto, se aposenta em 1950 e os pavilhões seguintes passam a ter a autoria do engenheiro Romano Lunardi. Apesar de manter várias características do projeto inicial, os edifícios de Lunardi variam principalmente na escala de conjunto, uma vez que Toigo previa apenas blocos baixos (figura 1) fechando o terreno a leste e a continuidade do escalonamento do pavilhão inicial em toda Plácido de Castro. Já a solução adotada por Lunardi incorpora um edifício de três pavimentos no canto nordeste, com marcação composta pelos oitões dos pequenos telhados de duas águas, diferente de Toigo que propunha a marcação apenas em platibanda e telhado em shed com edifícios de apenas um pavimento que se contrapunham à verticalidade da marcação do acesso.


Figura 1- Perspectiva para futura MAESA- Silvio Toigo. Fonte: AHMJSA (esq)
Figura 2- Desenho da Fábrica em 1964. Boletim Eberle Nº 79 – 1964. (dir)
Os edifícios que circundam o pátio a oeste, não apresentam projeto documentado e se conformam como telheiros, apoiados na própria estrutura do muro que circunda o terreno. Alguns inclusive não têm fechamento para o pátio interno por serem usados como depósitos. Apenas um bloco na Rua Dom José Barea, ao lado do prédio principal tem fachada com janelas para a rua, sendo o restante do conjunto fechado por muro cego de tijolo aparente, escalonado na rua Pedro Tomasi para acompanhar o desnível da rua.
A variação de ritmos e alturas do cercamento do conjunto deixam claras as diferentes soluções compositivas aplicadas em cada período de construção. A fachada da Plácido de Castro é a que apresenta maior descontinuidade, tendo sido construída em quatro períodos diferentes de tempo, que podem ser percebidos pela variação de tratamento, ritmo de aberturas e solução de platibanda. Para quem enxerga de fora, porém, a homogeneidade do tijolo aparente traz uniformidade ao conjunto. Internamente, o lado oeste referencia muito pouco as soluções arquitetônicas do lado leste, sendo o principal articulador o pátio com lago e exuberante vegetação.

A autonomia dos blocos era reforçada por ruas internas que traziam ao conjunto um caráter de pequena cidade. Com o passar do tempo muitas destas ruas foram cobertas e transformadas em grandes corredores, que dificultam a percepção dos edifícios como unidades autônomas criando uma sensação de conjunto desfragmentado. Podemos resumir o conjunto da MAESA como um partido aglomerado dividido em duas alas por edifício central e organizado ao redor de dois pátios ao centro de cada ala, com forte apelo de unidade pelo uso do tijolo aparente.
CIDADELA MAESA
O Plano Geral desenvolvido pelo Vazquez Arquitetos para MAESA entende o conjunto como algo indissociavel, pela sua caracteristica física de pequena cidade, com ruas, praças e edifícios, bem como pela sua história, que perpassa por todas as construções existentes. Esta percepção de conjunto é claramente defendida no projeto para reocupação do conjunto, no qual as soluções propostas respeitam as características existentes em cada pavilhão para indicar novo uso. A necessidade de uma mescla de novas funções atende tanto a realidade da escala do conjunto perante a cidade como as demandas da comunidade por espaços de comércio e serviços além de lazer e cultura.
A fim de compreender o conjunto tombado nos moldes da conservação integrada, o plano elabora análises que buscam interpretar as relações urbanas da preexistência, para atender de forma conjunta as exigências da conservação e as necessidades contemporâneas do desenvolvimento e do crescimento urbano. Nesta análise fica clara a barreira que a MAESA representou para o desenvolvimento da cidade ao sul (mais longe do centro). O muro que fecha o conjunto, assim como as fachadas dos edifícios adjacentes denotam a unidade do conjunto edificado, porém reforçam a ideia de barreira urbana. As esquinas fechadas por muros provocam a exclusão do edifício do contexto existente e tornam áridas as relações visuais do patrimônio na porção oeste. Já na porção leste, a existência de fachadas cria uma escala mais humana e deixa agradável a percepção do usuário externo uma vez que se compreende a identidade do edifício.
Atualmente as principais barreiras se dão nas faces oeste e leste, onde não há nenhum acesso, posto o desnível natural das ruas adjacentes. Existe a possibilidade de ampliar facilmente os acessos na porção leste, ativando as fachadas e integrando o edifício ao espaço urbano por estarem a nível com a rua. Na porção oeste a permeabilidade ao conjunto fica dificultada pelo desnível entre a calçada e o interior do lote. A introdução de novas edificações que se adaptem ao desnível e comuniquem o espaço interno e externo foi considerado para uma reabilitação a fim de proporcionar articulações peatonais com a malha urbana existente. A comunicação veicular foi descartada tanto pelo desnível existente, como pela importância de se preservar a configuração de implantação existente no patrimônio.
A importância do primeiro bloco como referencial histórico e arquitetônico foi defendido nas diretrizes para restauro do conjunto, que considera como ponto essencial a “preponderância simbólica do bloco 1” (VAZQUEZ ARQUITETOS 2022, 41). O Plano defende que este edifício deve manter-se como protagonista do conjunto após as ações de reabilitação. Esta hierarquia, porém, não pode ser garantida com o acesso principal pelo edifício, uma vez que o portão principal está barrado por maquinário tombado, já que há muito tempo não funcionava mais como entrada para a antiga indústria.
Figura 3- Imagem aérea, 2020. Fonte: Ícaro de Campos

Figura 4 – Perspectiva da área após intervenção – simulação. Plano Geral, Vazquez Arquitetos. (VAZQUEZ ARQUITETOS 2022)
A morfologia urbana existente foi resguardada na proposta, sendo considerada a supressão de edificações com difícil reaproveitamento, como depósitos e telheiros. Dos 19 blocos existentes, apenas três foram suprimidos definitivamente, dando lugar a praças que atendem às novas demandas. O bloco logo a oeste do edifício principal passa a dar lugar a um grande acesso sul em forma de praça aberta, que resgata a imagem histórica da indústria, hoje obstruída. Outro edifício suprimido ocupa área entre o bloco principal e o lago, criando uma barreira tanto visual como física que se desmaterializa com a construção de uma praça pública que amplia a relação espacial com área verde.

Figura 5 – Perspectiva da MAESA após intervenção. Simulação. Plano Geral, Vazquez Arquitetos. (VAZQUEZ ARQUITETOS 2022)
O lado leste teve praticamente todas as edificações mantidas com a subtração apenas de alguns elementos que foram anexados e de um pequeno bloco que ocupava área no jardim central. A eliminação deste bloco se justifica pela espacialidade do pátio aberto e da configuração de praça, porém, por fazer parte da história do conjunto sua memória deve ser mantida, através de documentação e de marcações que podem resgatar sua existência. Já o lado oeste manteve a configuração existente, porém a maioria das edificações podem ser substituídas por novas construções que se adequem às atuais necessidades criando novas relações de fluxo que tragam permeabilidade ao conjunto. Com um desnível de mais de 20 metros no lote a proposta prevê novas edificações em cota negativa a rua para acomodar essa diferença de nível sem agredir a espacialidade existente.
Considerações finais
Perante o potencial que representa o reuso do patrimônio industrial devoluto, este trabalho buscou analisar a abordagem e os e contributos metodológicos utilizados pelo Vazquez Arquitetos para definir dinâmicas urbanas, programas e funções no Plano Geral da MAESA. A solução apresentada busca valorizar o patrimônio existente encontrando soluções que o re-integrem ao tecido urbano, uma vez que o identificaram como uma atual barreira. Essas soluções passam pela criação de fachadas ativas sempre que possível, favorecendo o fluxo interno e externo do conjunto que funciona como uma pequena cidade. A solução de substituir antigos pavilhões de difícil reabilitação por novos edifícios em cota negativa que venham a proporcionar o fluxo entre o interior e o exterior foi proposto nos locais onde o desnível impossibilitava a comunicação. O plano demonstra o cuidado em reabilitar o conjunto levando em consideração as novas necessidades e procurando respeitar as configurações e relações espaciais existentes, uma vez que não se pode manter o conjunto sem intervenções.
O conflito entre o novo e o velho, o desenvolvimento e a preservação, a economia e a cultura são desprovidos de sentido, quando entendemos que estes conceitos andam juntos ao falar-se de restauração. Ulpiano Bezerra de Meneses (MENESES 1996) afirma que não há oposição entre os valores econômicos e culturais, uma vez que a atribuição do valor que o ser humano dá ao que o cerca é resultado de opções e depende das significações e dos juízos com que hierarquiza essas escolhas. Entendendo que a cultura não é intrínseca a um bem, e sim, resultado do comportamento humano em relação àquele bem, propõe a apropriação cotidiana do patrimônio, ao invés da segregação e fragmentação usual da cultura. Assim, apenas o fato de estar utilizando um bem patrimonial passa a ser um ato cultural.
O que se percebe é que o patrimônio industrial serve para articular o passado de um sítio com o futuro proposto, sendo utilizado como um motor no presente para atração de público e de investidores. Intervenções que consideram as características históricas e estéticas e respeitam os asptectos memoriais e simbólicos passam a ser atos culturais que renovam o bem para o uso presente e permitem que esses valores possam ser transmitidos para o futuro da melhor maneira possível.
REFERÊNCIAS
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MENESES, Ulpiano Bezerra de. Os Usos Culturais da Cultura. In: YAZIGI, E. (et al.). Turismo, espaço, paisagem e cultura. São Paulo: HUCITEC, 1996. 88-99.
RUFINONI, Manoela Rossinetti. Preservação e restauro urbano - intervenção em sítios históricos industriais. São Paulo: Edusp, 2013.
SEGAWA, Hugo. Arquiteturas no Brasil - 1900-1990. São Paulo: EDUSP, 2010.
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